O Caso do Tédio na Infância. Uma coisa estranha desapareceu silenciosamente da infância. Tédio. Durante a maior parte da história humana, o tédio era inevitável. A infância desenrolava-se em longos e irregulares períodos de tempo que ninguém se preocupava em organizar. As tardes de verão passavam sem um horário, as viagens de carro duravam horas com nada além da paisagem a passar, e as crianças passavam dias inteiros fora de casa com apenas uma instrução vaga para voltar antes do jantar. E algo curioso tendia a acontecer nesses espaços vazios. As crianças inventavam coisas. Um pau tornava-se uma espada, e depois uma vara de pescar, e então, sem aviso, uma varinha capaz de derrotar monstros imaginários. Um pedaço de relva tornava-se um campo de batalha. Uma caixa de papelão tornava-se uma nave espacial. Mundos inteiros emergiam do nada mais do que tempo ocioso e uma mente inquieta. Os neurocientistas agora entendem que o cérebro se comporta de maneira diferente nesses momentos. Quando a estimulação externa desaparece, uma rede profunda no cérebro chamada rede de modo padrão começa a ativar-se. É a circuitaria associada à imaginação, integração da memória e pensamento abstrato. Quando a mente não tem um destino específico, começa a divagar, e enquanto divaga, começa a conectar pontos que raramente se encontram durante atividades estruturadas. A criatividade muitas vezes vive nessa divagação. A infância moderna, no entanto, passou por um redesenho silencioso. O tempo vazio foi sendo substituído por atividades organizadas. Ligas desportivas, sessões de tutoria, aulas de música, programas de enriquecimento. Mesmo as pequenas lacunas entre as atividades tendem a ser preenchidas com ecrãs projetados com extraordinária precisão para eliminar o tédio no momento em que começa a aparecer. Os pais preocupam-se quando o tédio surge. Uma criança a anunciar "não há nada para fazer" pode parecer um problema à espera de ser resolvido, um sinal de que o ambiente carece de estimulação suficiente. Mas o tédio é simplesmente o cérebro a começar um modo de operação diferente. A mente começa a gerar a sua própria estimulação em vez de consumir a de outra pessoa. Olhe de perto para as infâncias de pessoas incomumente criativas e um padrão emerge. Steve Jobs passou longos períodos a vagar pelos bairros do Vale do Silício, explorando lojas de eletrónica e experimentando em garagens. Albert Einstein descreveu famosamente horas de sonhar acordado na infância, olhando pela janela e imaginando problemas físicos na sua cabeça. J.K. Rowling começou a inventar histórias elaboradas muito antes de ter qualquer público para elas. Cada um deles tinha algo que se tornou surpreendentemente raro. ...